Trabalho em um banco de investimentos, tenho um bom cargo e me sinto bem ali. Porém, meus gestores começaram a desenvolver programas para promover e incutir os valores da organização em seus funcionários. Foi dito que todos precisamos nos envolver em atividades “extracurriculares”, como participar de grupos de caridade, de preservação ao ambiente entre outros. Sinto que isso é uma arbitrariedade, pois além de não poder escolher que causa apoiar, nem me perguntaram se eu gostaria ou não de fazer parte disso.

Acredito que como se trata do meu tempo livre, tenho todo o direito, se quiser, de ficar deitada no sofá sem fazer nada. Ao mesmo tempo, tenho receio de confrontar meus chefes ou me negar a participar, pois isso poderia ser ruim para a minha imagem. O que devo fazer? Entendo seu sentimento de imposição e concordo com você que esse tipo de movimento nas empresas deveria ser voluntário e não arbitrário. Até porque esse é um trabalho que exige dedicação e responsabilidades por parte de quem o adere e não pode ser encarado apenas como uma obrigação.

Empresas genuinamente comprometidas com a responsabilidade social e com o ambiente são mais admiradas por seus funcionários e demais stakeholders. Mas, na ânsia de se mostrarem socialmente responsáveis – não só para o público interno, mas especialmente usando a causa como marketing -, muitas delas acabam atropelando processos e gerando problemas como este que você descreve. Por outro lado, sou uma defensora da causa da sustentabilidade no seu aspecto mais amplo e acredito que ações de cidadania devem, sim, fazer parte do dia a dia das empresas e das pessoas.

Esta é uma tendência global e irreversível. Falta apenas um amadurecimento das organizações sobre a forma como praticar isso tudo. Conversar com a equipe responsável pelo programa social na companhia em que você trabalha, expondo a questão, pode ser um bom começo. Se você abrir o jogo de uma forma tranquila, eles entenderão seu comentário como uma contribuição e não como um confronto. Se outras pessoas que discordam dessa imposição fizerem o mesmo, é possível que a empresa reveja esse formato. Caso você já participe de outros projetos sociais, pode tentar negociar com a empresa para que fique de fora dos projetos institucionais realizados fora do horário de trabalho.

Agora, se a organização já se posicionou sobre a questão abertamente de forma contrária a que você gostaria – e você não pretende mudar de emprego por conta disso- talvez a solução mais inteligente seja enxergar aí uma oportunidade. Há estudos que comprovam que a participação de funcionários em trabalhos voluntários melhora o espírito de equipe e gera maior motivação e confiança para resolver problemas na empresa e fora dela.

Esse exercício desenvolve competências importantes de liderança como a de servir ao outro. Você pode descobrir uma grande satisfação ao participar de um projeto como voluntária. Conheço muita gente que encontrou um novo sentido para a própria vida ao se envolver com causas sociais. Algumas até mudaram de carreira em busca de significado para suas atividades pessoais e profissionais. Aproveite essa oportunidade de crescimento no aspecto da cidadania. Apenas se certifique de que a empresa também está oferecendo a capacitação adequada aos seus funcionários e que esses valores condizem com a conduta da organização nas demais esferas – inclusive a econômica. Você pode descobrir que ajudar alguém pode ser muito mais prazeroso do que ficar deitada no sofá.

Vicky Bloch é professora da FGV, do MBA de recursos humanos da FIA e fundadora da Vicky Bloch Associados Esta coluna se propõe a responder questões relativas à carreira e a situações vividas no mundo corporativo. Ela reflete a opinião dos consultores e não do Valor Econômico. Perguntas devem ser enviadas para: E-mail: diva.executivo@valor.com.br